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ღ "Carta de uma menina estuprada."

Ele me olhou daquele jeito que não deveria.
Ele me tocou daquele jeito que não deveria.
Ele segurou minhas mãos de um jeito que não deveria.
E quando suas mãos por um momento soltaram as minhas, vieram de encontro com minha boca, calando o grito da m’alma.
E então, consumiu um ato que não, não, ELE NÃO DEVERIA!

Suja, imunda, eu me senti. Aquele corpo não era mais meu, eu não consegui protegê-lo.
E m’alma? Ah m’alma… Ela nunca mais parou de gritar. Assim como o grito foi abafado por uma mão que não era minha um dia (pior dia), todos os outros eu também abafei. Abafei, me calei, e então, toda aquela dor, eu optei por sentir sozinha.

Como parar de ver os dias tomado por uma grande tempestade, mesmo com um sol de 40C° lá fora?

Gritei em silêncio por tantos anos, na esperança de que alguém pudesse entender o que eu não dizia, mas no fundo, na verdade eu não queria. Tinha medo. Eu iria “Virar o assunto que estaria na boca de todos”, ou pior, poderiam me acusar de “ter provocado aquilo”.

A dor? Ela está presente como nunca, todos os dias, anos e anos. Se a gente esquece? NUNCA!

Eu morri naquele dia, sabia?! Esperei, ansiei, desejei que enterrassem logo aquele corpo que eu não queria mais ter. Mas como? Se ninguém consegue enxergar a morte interior de outra pessoa.

Se um dia a gente supera? Claro! Somos obrigadas! Ou superamos ou viveremos 24 horas com as mesmas imagens na cabeça. E é aí, que aos poucos vamos dando vida a nós mesmas, quando lutamos para parar de se torturar com a nossa própria mente.

E depois de tantos anos, eu posso afirmar: a gente consegue! Consegue encontrar sentido em alguma coisa para continuar. Consegue seguir em frente, e ter um futuro brilhante, apesar de terem apagado a nossa luz no passado. E conseguimos nos agarrar a Deus, apesar de termos perguntado tantas vezes porque aquilo foi permitido.

E ele? Ele está por aí, andando como quem nunca fez nada. Está ao seu lado na rua, no trabalho, dentro da sua casa, dentro da minha casa. Porque o medo também veio de encontro a minha boca, a sua boca, a trancou e jogou a chave em um lugar escuro aqui dentro, onde eu nunca tive a coragem de ir buscar.

Déborah Ferreira

Menina de 21 anos, que odeia drama, exceto as suas. Um dia um poço de meiguice e fofura e em outros fria e calada. Que fez do caderno e da caneta seus melhores amigos, e do livro o seu companheiro até o fim. Aprendeu a transformar suas experiencias em textos, por não conseguir muito desabafar com pessoas. Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria! Quem gosta de leitura, nunca se sente sozinho. ♥

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  • Andressa Andrade

    Que texto! A temática é pesada, deu para sentir bem toda a angústia que você quis passar. A forma como você estruturou o texto, com frases curtas e parágrafos pequenos, centralizados, acrescentou muito ao que você queria passar. É como se fosse difícil para a narradora falar, e ela precisasse falar de maneira contida, uma frase de cada vez.

    Gostei muito também da forma como você começou e encerrou o texto. O começo chamou a minha atenção de imediato, me fez querer continuar lendo. E o final me deixou com medo, por me envolver também. “Ele está ao seu lado na rua” é arrepiante. Sabe, nós, garotas, tentamos não pensar muito nisso, para não corrermos o risco de ficarmos paranoicas e não querermos sair de casa nunca mais. Mas é verdade, não é? O estuprador pode estar bem ao nosso lado. E é horrível que tenhamos que viver com medo disso.

    Enfim… Parabéns pelo texto! Você escreve muito bem e sabe utilizar a estrutura do texto para ajudar a passar aquilo que você quer, o que é muito importante. ^^

    • Obrigada Linda! Amei muito toda a sua observação e fico muito feliz!
      Realmente é um tema muito tenso, mas consegui transmitir a mensagem que queria.

      Muito obrigava Flor!